A voz das mulheres indígenas no Acampamento Terra Livre

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Participação na programação oficial do ATL se iniciou em 2016, quando mulheres integrantes do projeto Voz das Mulheres Indígenas organizaram uma plenária específica para discutir e validar a Pauta Nacional das Mulheres Indígenas Ro’otsitsina Xavante, da REJUIND e integrante do Grupo de Referência do projeto Voz das Mulheres Indígenas Foto: ONU Mulheres/ Amanda Lemos Mulheres indígenas organizaram na terça-feira (25/4) uma plenária dedicada às pautas específicas de mulheres, pela segunda vez na história do Acampamento Terra Livre (ATL), evento que está em sua 14ª edição e reúne 3 mil indígenas de todo o país em Brasília-DF, de 24 a 28 de abril. Segundo Ro’otsitsina Xavante, da REJUIND e integrante do Grupo de Referência do projeto Voz das Mulheres Indígenas, as mulheres sempre se reuniram no ATL, mas é a segunda vez que conquistam um espaço na programação oficial. “Este é um momento de visibilidade e de fortalecimento para nós mulheres”, diz. Ro’otsitsina também conta que a participação das mulheres aumentou neste segundo ano, em especial a das mulheres jovens, que estão curiosas em conhecer e participar desse empoderamento político. A participação na programação oficial do ATL se iniciou em 2016, quando mulheres integrantes do projeto Voz das Mulheres Indígenas organizaram uma plenária específica para discutir e validar a Pauta Nacional das Mulheres Indígenas. A partir dali houve uma série de incidências delas em processos locais, estaduais e nacionais em conferências de políticas indigenistas e na Conferência de Políticas para as Mulheres (CNPM). O projeto Voz das Mulheres Indígenas é realizado por lideranças indígenas e pela ONU Mulheres, com apoio da Embaixada da Noruega. A iniciativa incentiva o empoderamento das mulheres e sua participação política em todas as esferas de decisão. Mulheres de mais de cem povos participam do programa. Este ano, o tema da Plenária das Mulheres Indígenas no ATL foi a etapa ampliada da 1ª Conferência Livre de Saúde das Mulheres Indígenas. As discussões advindas da 1ª Conferência Livre foram debatidas e validadas na plenária. As propostas vão alimentar a Conferência Nacional de Saúde das Mulheres, a ser realizada pelo Conselho Nacional de Saúde (CNS) no segundo semestre deste ano. Mulheres indígenas também promoveram debate sobre a 1ª Conferência Livre de Saúde das Mulheres Indígena Foto: ONU Mulheres/Amanda Lemos Na abertura da plenária, as organizadoras convidaram as mulheres presentes a contribuir com a pauta que será levada à Conferência Nacional de Saúde das Mulheres. “Para falar da saúde da mulher, a mulher tem que estar presente. É muito importante que as mulheres participem dessa construção com os parentes, porque só as mulheres sabem as preocupações que lhes concernem e quais são as suas especificidades”, disse Kuiaiu Yawalapiti, da Associação Yamurikumã das Mulheres Xinguanas, na abertura do evento. Dentre os pontos apresentados na conversa estão a ampliação de recursos para os hospitais que atendem a população indígena, o acesso a anticoncepcionais e outras formas de prevenção da gravidez, a prevenção de doenças sexualmente transmissíveis e do câncer de colo do útero, o atendimento às mulheres vítimas de violência, a capacitação de agentes da saúde e a qualidade da alimentação e da água para a manutenção da saúde da população indígena. A plenária foi marcada pela busca de voz e participação das mulheres indígenas nos espaços de poder. “Vamos voltar às bases e brigar para participar dessas conferências. A mulher não sabe somente fazer comida, não. A mulher pode fazer de tudo. A mulher tem que ficar no lugar que ela quiser. Nós temos autonomia de decidir o que queremos. Vamos levantar mulheres! Vamos andar junto com os homens! Não queremos ficar atrás dos homens, queremos andar lado a lado. Queremos discutir políticas públicas voltadas para as mulheres indígenas”, disse Dorinha Pankará. Para além do esforço em mobilizar as mulheres indígenas para que se tornem delegadas municipais, estaduais e nacionais -posição esta que lhes garante o voto- na Conferência de Saúde das Mulheres Indígenas, este ano a SESAI (Secretaria Especial de Saúde Indígena do Ministério da Saúde) levará uma carta à Conferência elaborada pelas mulheres indígenas. A plenária se encerrou com as mulheres em roda, numa dança em homenagem à Rosane Kaingang, importante ativista indígena e uma das fundadoras da Apib (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil), que morreu em outubro de 2016. “Rosane estava à frente da sua época. Ela sempre esteve nos debates, em todas as discussões e nos espaços de tomada de decisão. Ia para o embate mesmo, se colocava. Por mais que não houvesse ainda uma diplomacia, ela dava o recado. Ela doou praticamente a sua vida para o movimento indígena. Este é o primeiro ano sem Rosane no Acampamento Terra Livre”, diz Ro’otsitsina. O tema do ATL em 2017 é “Unificar as lutas em defesa do Brasil indígena: pela garantia dos direitos originários de nossos povos”. O encontro aborda desafios como a paralisação das demarcações indígenas, o enfraquecimento das instituições e políticas públicas indigenistas e as proposições legislativas que tramitam no Congresso consideradas anti-indígenas. O ATL é promovido pela APIB, Mobilização Nacional Indígena e tem o apoio de organizações indígenas, da sociedade civil e outros movimentos sociais parceiros Conteúdos relacionados: 25.04.2017 - Brasileiras participam de sessão anual do Fórum Permanente da ONU para Questões Indígenas, em Nova Iorque 25.04.2017 - No Dia Laranja, ONU alerta para violência contra mulheres indígenas 25.04.2017 - “As escolas têm que pautar a questão da violência contra as mulheres indígenas”, diz Braulina Baniwa no Dia Laranja 24.04.2017 - Mulheres indígenas organizam plenária na programação oficial do Acampamento Terra Livre 19.04.2016 - Nota pública: ONU Mulheres alerta para violência contra mulheres indígenas e conclama garantia de direitos 18.03.2016 – Relatora Especial da ONU sobre os Direitos dos Povos Indígenas recomenda maior documentação dos problemas enfrentados pelas mulheres indígenas do Brasil 30.12.2015 – “Enquanto eu não ver cada mulher falando por si, minha luta não acabou”, afirma a guarani nhandeva Andreia Lourenço 29.12.2015 – “Quando a gente pega o sabor da luta, a gente não quer parar mais”, afirma Iara Wassu Cocal 28.12.2015 – Entre a aldeia e a universidade, a terena Simone Amado é uma das articuladoras políticas indígenas no Centro-Oeste 23.12.2015 – Mulheres indígenas estão na luta pela terra e sofrem ameaças de madereiros 22.12.2015 – “O compromisso do Brasil tem que ser com os nossos direitos”, diz Sônia Guajajara, do movimento de mulheres indígenas