Celebrando a nossa Amefricanidade e o legado de Lélia Gonzalez: 5 coisas que você precisa saber neste 25 de Julho
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25 de Julho é o Dia Internacional da Mulher Negra Afro-Latinoamericana, Afro-Caribenha e da Diáspora.
A data foi criada em 1992, como resultado do ativismo e da solidariedade entre meninas e mulheres negras da América Latina e do Caribe, em reconhecimento à sua resistência, luta e contribuições na região.
Neste Julho das Pretas, nós também lembramos o legado da intelectual e defensora de direitos humanos brasileira Lélia Gonzalez, que nos deixou há 30 anos.
Aqui estão cinco coisas sobre a Amefricanidade e o legado de Lélia Gonzalez – e o que tudo isso tem a ver com o trabalho da ONU Mulheres no Brasil.
1 - Quem foi Lélia Gonzalez?
Lélia Gonzalez foi uma escritora, pesquisadora, professora, intelectual e defensora de direitos humanos brasileira. Pioneira nos estudos sobre mulheres negras no Brasil e no mundo, Lélia combinava conhecimentos de filosofia, história e antropologia e emprestava conceitos da psicanálise para desmantelar tabus fundamentados no racismo e no sexismo da sociedade. Um dos principais pontos de crítica era o mito da “democracia racial”, isto é, a ideia de que o Brasil seria um País livre do racismo. Lélia Gonzalez contribuiu para momentos importantes de consolidação do movimento negro brasileiro, como a fundação do Movimento Negro Unificado – MNU, em 1978. Ela também colaborou para a redemocratização e participou da política institucional no País. Com base em dados demográficos e em análises sobre a situação e a posição da mulher negra na sociedade, inclusive na mídia, nas artes e no cinema, Lélia Gonzalez liderou uma geração que escancarou a extensão da discriminação racial no País, em suas dimensões estruturais e simbólicas.Você sabia?
- No Brasil, as mulheres negras são a maior parte da população. Somos quase 57 milhões de mulheres e meninas negras no País, de acordo com o último Censo.
- Apesar disso, ocupamos apenas 5,37% dos assentos no Congresso.
2 – Uma pioneira da interseccionalidade
“Interseccionalidade” é um conceito atribuído à intelectual negra norte-americana Kimberlé Crenshaw, que o introduziu em 1989. Ela defende que as experiências das mulheres negras na sociedade não são um simples somatório de formas de discriminação, como o racismo enfrentado por homens negros e as opressões de gênero sofridas por mulheres brancas. Assim, a interseccionalidade propõe um método de análise que considere as mulheres negras como ponto de partida. Isso significa olhar para os efeitos de formas múltiplas ou agravadas de discriminação sobre elas, de modo específico. Anos antes de Crenshaw, os trabalhos de Lélia Gonzalez exploravam essas interseções, como em “Racismo e sexismo na cultura brasileira”, publicado em 1984. Lélia Gonzalez desenvolveu conceitos como “Amefricanidade” e “Pretuguês” para descrever identidades coletivas, territórios e padrões linguísticos, estéticos, artísticos e culturais característicos desses espaços de interseção entre gênero, raça, etnia, religião, nacionalidade, etc.O que é Amefricanidade?
“Amefricanidade” é um conceito desenvolvido por Lélia Gonzalez, combinando palavras distintas: América e África. Essa é uma inovação teórica de Lélia, inaugurando uma identidade política que ultrapassasse fronteiras nacionais e valorizasse as contribuições dos Povos originários e da diáspora africana nas Américas, reconhecendo esses elementos como parte constitutiva da nossa identidade. Para Lélia, esse seria um passo fundamental para eliminar o racismo na sociedade, pois, especialmente no Brasil, a sua principal característica seria a supressão e o não reconhecimento da negritude como parte constitutiva da identidade nacional. Com essas inovações, Lélia indicava que era preciso usar a imaginação política para reivindicar o reconhecimento de direitos humanos e lutar pela igualdade, construindo alianças que valorizassem as diferenças e potencializassem a solidariedade entre movimentos de mulheres, da população negra, de Povos Indígenas, Quilombolas, pessoas LGBTQIAPN+, etc.
3 - Lélia Gonzalez e o papel das mulheres negras no Brasil e no mundo
As contribuições de Lélia Gonzalez foram transformadoras porque destacaram a importância das contribuições das mulheres negras e a sua centralidade enquanto agentes políticas e da mudança social. A história da formação nacional brasileira não é contada a partir dos “grandes feitos” de heróis de guerra, governantes ou elites. Em vez disso, ela assume a perspectiva e o local de fala dos muitos milhões de mulheres negras que exerceram, de fato e simbolicamente, o papel de “mães” na estrutura social do País. Desafiando a separação tradicional entre espaços públicos e privados, Lélia destaca o papel exercido pelas mulheres negras desde os espaços familiares e unidades domésticas como o de maior consequência e relevância para a constituição do Brasil e de tudo aquilo que caracteriza a nossa Amefricanidade. Por meio dessa função, as mulheres negras foram capazes de transmitir conhecimentos, saberes, valores, costumes, palavras, tradições. Isso foi feito, por exemplo, a partir do exercício dos trabalhos de cuidado e das diversas formas de resistência social, política, espiritual, artística, científica e cultural, principalmente nas religiões afro-brasileiras e festas populares. Esse diferencial brasileiro impactou a negociação de diversas agendas globais para a igualdade de gênero, raça e direitos humanos. As mulheres negras brasileiras, articuladas com outras mulheres da região e do mundo, foram fundamentais para integrar perspectivas interseccionais na Declaração e a Plataforma de Ação de Pequim (1995) e a Declaração e o Programa de Ação de Durban (2001), documentos que guiam o progresso internacional para a igualdade de gênero e raça.“O processo de participação das mulheres negras em Pequim foi liderado por Lélia Gonzalez. Pela participação nos Comitês da ONU e junto com Esmeralda Brown, da ONU, nós asseguramos, nesse coletivo, o debate profundo e sério sobre a questão da mulher negra no mundo. Vários outros grupos de mulheres de outros países que não tinham a possibilidade de fazer esse debate interno, fizeram o debate no processo de construção de Pequim e acabaram criando processos de políticas públicas em seus próprios países”Dulce Pereira