Milly Lacombe: o que a violência digital contra mulheres revela sobre poder, gênero e sociedade
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Jornalista e escritora brasileira, Milly Lacombe é uma das vozes mais atentas às transformações da cultura digital e às violências que atravessam esse espaço. Com uma trajetória marcada pelo jornalismo esportivo e pela defesa pública dos direitos das mulheres, ela fala com franqueza sobre o que viveu e observa: a internet pode ser ferramenta de liberdade, mas também de silenciamento.
Milly Lacombe. Foto: Pedro Ivo / @ZPDRZ
Nesta entrevista, realizada no contexto dos 21 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres, Milly reflete sobre como a violência se expressa nas redes, o papel das plataformas e o desafio coletivo de reconstruir o tecido social para que mulheres possam existir e se expressar com segurança no ambiente digital.
Você tem falado muito sobre como o ambiente digital pode ser um espaço de liberdade, mas também de violência. Como você definiria a violência digital contra mulheres hoje, a partir da sua experiência pessoal e profissional?
A violência digital repete a social com o agravante de que, no digital, o agressor pode se esconder atrás de um perfil qualquer. Como as redes vivem dessas agressões, existe um incentivo tácito para que agressores sigam agredindo.
Nos últimos anos, jornalistas, atletas e criadoras de conteúdo têm sido alvos frequentes de ataques online. O que esses episódios revelam sobre a cultura de gênero e de poder nas redes?
Revelam a força da estrutura. Como não há punição, já que as redes sociais lucram com os ataques, a estrutura das opressões aparece em todo o seu relevo e com toda a sua força.
Quando o assédio vem em massa, em forma de comentários, ameaças ou campanhas coordenadas, que efeitos isso produz em quem é alvo? Como esse tipo de violência muda a forma como mulheres participam do debate público?
A violência tem como objetivo intimidar e excluir mulheres do debate público. Muitas pensam: não vou me meter nessa treta porque vai sobrar para mim. A gente pensa dez vezes, recua, omite, silencia. O objetivo da agressão é justamente silenciar e, sob esse ponto de vista, ela é um sucesso.
Você vem do jornalismo esportivo, um ambiente onde a misoginia digital é muito visível. Quais são as formas mais recorrentes de violência que você observa nesse campo e o que tem mudado (ou não) nos últimos anos?
A violência no meio esportivo é escancarada, mas também pode ser sutil. O passivo-agressivo corre com liberdade. Homens que dizem jogar como aliados, mas que não perdem a piada machista. O colega que diz ao vivo “mas eu sempre te defendo” entre risos e como se a suposta defesa, sabe-se lá do que, nos oferecesse alguma proteção e como se fosse da proteção dele que precisávamos. Os colegas raramente (para não escrever nunca) cobram-se uns aos outros sobre o machismo, mas são capazes de cobrar as mulheres sem sequer se constrangerem. A agressão escancarada faz menos mal do que a camuflada.
A violência digital raramente fica só no espaço virtual. Quais são, para você, os impactos reais, emocionais, profissionais e até físicos, dessa violência?
O cansaço. Tem dias que a vontade é desistir. Acho que essa exaustão é o efeito mais nocivo. Mas agora existem algumas de nós por aí e nessas horas a gente se incentiva e o cansaço passa.
Em sua opinião, qual é o papel das plataformas, da imprensa e das instituições públicas no enfrentamento à violência digital de gênero? O que ainda falta fazer?
Falta fazer basicamente tudo. Primeiro parar de querer lucrar com o sangue alheio. O livro A Máquina do Caos, de Max Fisher, conta em detalhes como o confronto é lucrativo. Seria preciso compreender liberdade de expressão como conceito coletivo e não individual.
O tema dos 21 Dias deste ano é justamente a violência digital contra mulheres. Que mensagem você deixaria para quem acredita que “é só internet” e para quem quer ser parte da solução?
A Internet pode, assim como um martelo, ser usada para construir ou destruir. Quem decide o que vai ser é a sociedade. Vivemos uma plutocracia, que é o regime no qual uma pequena elite financeira faz as leis e as exerce. Tirar poder dessa elite financeira é o primeiro passo. Reconstruir o tecido social, nos enxergar como comunidade, saber que dependemos uns dos outros para existir. Acho que esse é o passo-a-passo.
Milly Lacombe. Foto: Pedro Ivo / @ZPDRZ
Nesta entrevista, realizada no contexto dos 21 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres, Milly reflete sobre como a violência se expressa nas redes, o papel das plataformas e o desafio coletivo de reconstruir o tecido social para que mulheres possam existir e se expressar com segurança no ambiente digital.
Você tem falado muito sobre como o ambiente digital pode ser um espaço de liberdade, mas também de violência. Como você definiria a violência digital contra mulheres hoje, a partir da sua experiência pessoal e profissional?
A violência digital repete a social com o agravante de que, no digital, o agressor pode se esconder atrás de um perfil qualquer. Como as redes vivem dessas agressões, existe um incentivo tácito para que agressores sigam agredindo.
Nos últimos anos, jornalistas, atletas e criadoras de conteúdo têm sido alvos frequentes de ataques online. O que esses episódios revelam sobre a cultura de gênero e de poder nas redes?
Revelam a força da estrutura. Como não há punição, já que as redes sociais lucram com os ataques, a estrutura das opressões aparece em todo o seu relevo e com toda a sua força.
Quando o assédio vem em massa, em forma de comentários, ameaças ou campanhas coordenadas, que efeitos isso produz em quem é alvo? Como esse tipo de violência muda a forma como mulheres participam do debate público?
A violência tem como objetivo intimidar e excluir mulheres do debate público. Muitas pensam: não vou me meter nessa treta porque vai sobrar para mim. A gente pensa dez vezes, recua, omite, silencia. O objetivo da agressão é justamente silenciar e, sob esse ponto de vista, ela é um sucesso.
Você vem do jornalismo esportivo, um ambiente onde a misoginia digital é muito visível. Quais são as formas mais recorrentes de violência que você observa nesse campo e o que tem mudado (ou não) nos últimos anos?
A violência no meio esportivo é escancarada, mas também pode ser sutil. O passivo-agressivo corre com liberdade. Homens que dizem jogar como aliados, mas que não perdem a piada machista. O colega que diz ao vivo “mas eu sempre te defendo” entre risos e como se a suposta defesa, sabe-se lá do que, nos oferecesse alguma proteção e como se fosse da proteção dele que precisávamos. Os colegas raramente (para não escrever nunca) cobram-se uns aos outros sobre o machismo, mas são capazes de cobrar as mulheres sem sequer se constrangerem. A agressão escancarada faz menos mal do que a camuflada.
A violência digital raramente fica só no espaço virtual. Quais são, para você, os impactos reais, emocionais, profissionais e até físicos, dessa violência?
O cansaço. Tem dias que a vontade é desistir. Acho que essa exaustão é o efeito mais nocivo. Mas agora existem algumas de nós por aí e nessas horas a gente se incentiva e o cansaço passa.
Em sua opinião, qual é o papel das plataformas, da imprensa e das instituições públicas no enfrentamento à violência digital de gênero? O que ainda falta fazer?
Falta fazer basicamente tudo. Primeiro parar de querer lucrar com o sangue alheio. O livro A Máquina do Caos, de Max Fisher, conta em detalhes como o confronto é lucrativo. Seria preciso compreender liberdade de expressão como conceito coletivo e não individual.
O tema dos 21 Dias deste ano é justamente a violência digital contra mulheres. Que mensagem você deixaria para quem acredita que “é só internet” e para quem quer ser parte da solução?
A Internet pode, assim como um martelo, ser usada para construir ou destruir. Quem decide o que vai ser é a sociedade. Vivemos uma plutocracia, que é o regime no qual uma pequena elite financeira faz as leis e as exerce. Tirar poder dessa elite financeira é o primeiro passo. Reconstruir o tecido social, nos enxergar como comunidade, saber que dependemos uns dos outros para existir. Acho que esse é o passo-a-passo.