Carta aberta: Quem pede o voto das mulheres precisa dizer o que fará por elas

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Dez propostas. É o que a ONU Mulheres apresenta, a quase 15 dias das eleições gerais no Brasil, a quem disputa o voto dos brasileiros e brasileiras. Participação política, disputa eleitoral em pé de igualdade, fim da violência política, vida sem violência, cuidado, renda e clima. Todas são condição para que a democracia brasileira represente, de fato, a maioria da sua população. 

As desigualdades que mantêm as mulheres longe do poder são as mesmas que organizam a vida delas fora da política. Uma brasileira dedica 21,3 horas por semana ao trabalho doméstico e ao cuidado de outras pessoas; um brasileiro, 11,7. São quase dez horas semanais que não sobram para estudar, trabalhar, descansar ou fazer campanha. Nas empresas com mais de cem empregados, as mulheres ganham 21% menos. Uma em cada três sofre violência ao longo da vida. Em 2025, 1.571 mulheres foram vítimas de feminicídio no Brasil, a maioria negras, a maioria dentro da própria casa.

Quem carrega dez horas a mais de trabalho por semana e teme pela própria vida dentro de casa tem menos condições de disputar um mandato. E o Congresso mostra isso. As mulheres são 52,8% do eleitorado brasileiro. No entanto, ocupam 17,2% das cadeiras da Câmara dos Deputados e 18,5%  do Senado.  Entre 2025 e 2026, o Brasil caiu da 133ª para a 139ª posição no ranking mundial de mulheres no parlamento, atrás de todos os vizinhos sul-americanos. Das 91 deputadas eleitas em 2022, 29 são negras, num país em que as mulheres negras são o maior grupo populacional.

As mulheres estão se candidatando. Neste ano, as mulheres são 36,6% das candidaturas à Câmara, mais do que em 2010. São quase metade das pessoas filiadas a partidos. A distância entre uma coisa e outra tem causas conhecidas: falta dinheiro de campanha que chegue na hora certa, falta espaço nas direções partidárias e sobra violência. Ameaças, ataques em rede, tentativas de calar quem ousa disputar. Essa violência é crime desde 2021, mas segue afastando mulheres da vida pública, com peso maior sobre as mulheres negras e as indígenas.

Falar de clima numa lista de propostas para as mulheres pode surpreender. Não deveria. São as mulheres que, nas comunidades, organizam a resposta a enchentes, secas e perda de colheitas. E são minoria entre quem decide: na COP30, em Belém, foram 44% das delegações nacionais e 36% de quem as chefiava. Apenas 0,01% do financiamento climático mundial chega a projetos que tratam ao mesmo tempo de clima e de direitos das mulheres. O Brasil, que acaba de sediar a conferência do clima e já tem uma Estratégia Transversal Mulheres e Clima, pode liderar essa mudança.

As dez propostas apontam caminhos que qualquer candidatura, de qualquer partido, pode assumir, e que qualquer eleitora e eleitor pode cobrar para criar impacto e mudança reais na vida das brasileiras. Apoiamos um país em que as decisões sejam tomadas por quem representa, de fato, a sua população. 

Às vésperas de um pleito tão decisivo, convidamos quem disputa o voto a ler as dez propostas publicadas pela ONU Mulheres e a dizer publicamente quais delas assume. E convidamos quem vota a perguntar. Quem pede o voto das mulheres precisa dizer o que fará por elas

Gallianne Palayret é Representante da ONU Mulheres no Brasil.

Documento completo: Dez propostas pela vida das mulheres